Naquele sábado à noite, bebi demais.
Queria chamar a atenção do R, queria ser a pessoa mais especial da festa dele. No fim da noite, após vários sinais de rejeição, entrei sozinha no Uber.
Já sabia como me ia sentir nos próximos dias: vazia e barulhenta, não é novidade em mim.
Este texto é sobre essa vontade cansada de ser escolhida.
Questão de milhões: é sobre ser amada… ou ser escolhida?
À primeira vista, pode parecer tudo a mesma coisa. Mas é precisamente na diferença entre estas duas palavras que vive uma dúvida muito funda em mim: sobre amor, merecimento, e sobre como me vejo ao espelho dos outros.
Sinto que há um vazio — como o eco dessas capelas monstruosas — onde uma sombra, tipo um bebé gigante, me convence de que só sou especial se alguém me vir assim. Se alguém me escolher. Como se a minha singularidade só ganhasse forma ao ser reconhecida por um outro, que me encaixe no seu mundo e me torne finalmente real.
Faz sentido? Eu quero que isto faça sentido como a party 4 u da Charli XCX!!!
Isto não é sobre comboios.
Mas no comboio ou no autocarro, eu prefiro sempre sentar-me sozinha.
Para muitas pessoas tanto dá… Algumas até preferem ter alguém ao lado para vigiar a mala se tiverem de dar um pulinho ao bar ou para confirmar info da viagem. No meu caso, entro sempre com uma missão clara: encontrar os bancos fantasmas. Ahhh que chill girl sentar sozinha no transporte, num lugar onde não preciso negociar presença nem sentir as coxas de ninguém. Idealmente, no comboio é aquele que só tem mesmo um assento e fica no fundo de uma carruagem. No autocarro, são os dois lugares que, por acaso ou por destino, ninguém comprou.
Ainda assim, fico feliz com pequenas interações entre viagens.
Lembro-me de uma em particular, num voo de regresso de Berlim. O avião estava atrasado e, de repente, chegou ao meu gate a mulher mais maravilhosa. Eu nem sei bem o porquê: talvez fossem os óculos, o perfume caro, o cabelo iconicamente estilizado, a mala sexy… Não importa.
No fundo, ela tinha aquela energia de rockstar, sabes? E onde eu quero mesmo chegar é que me recordo perfeitamente de sentir-me hipnotizada — e de me perceber um novo objetivo: ser notada por ela.
Como se a sua atenção fosse um passe de entrada num planeta especial — aquele onde vivem as pessoas magnéticas. Afinal, se ela me escolheu para fazer ponte na sua realidade, nem que fosse por uns segundos, então eu também seria uma peça daquilo que ela é. Porque dizem que vemos nos outros o que temos em nós, certo?
Eu acredito que é isso que tenho no “amor” também: uma vontade desmedida de ser escolhida por pessoas que vejo como especiais só para confirmar que eu também pertenço a esse tal planeta, será?
Sozinha, no meu quarto, com os fones nos ouvidos, eu sinto-me especial. Mas quando se misturam outros, sinto-me um erro de casting.
E tenho 2 teorias, nenhuma delas certa, nenhuma delas errada:
Primeira: talvez eu me proteja demais. Talvez esta ideia de que sou especial sozinha só existe enquanto não me deixo ser realmente vista de perto, porque se for essa “magia” será desmistificada.
Segunda: ou talvez seja o contrário: talvez veja os outros com tanto encanto — quase como se não arrotassem nem cagassem — que me torno pequena por me saber tão humana.
Talvez tenha sido por isso que, naquele sábado, me coloquei numa posição tão descaracterizada só para ser notada pelo R.
Para ser escolhida. Para provar a mim mesma que ainda podia habitar o imaginário romântico que, em criança, me parecia tão óbvio: príncipe encantado, família, amor. Again, consegues entender este sentimento como o party 4 u da Charli XCX? (Abana com a cabeça se sim.)
“O verdadeiro amor aparece quando menos esperas” e outros blablablas.
Sei que em tempos sonhei com esse tal príncipe encantado, uma família grande e barulhenta. Mas para ser realmente honesta a minha vivência intima, e das mulheres a minha volta, fez esse sonho parecer mais uma sina: algo que o destino não traçou para mim, para nós.
Acreditar que o destino não me quer no sonho romântico — ou que o amor romântico só pode ser fake num mundo misógino, putofóbico, gordofóbico, racista — é tão confuso. E é tão vazio. Lá está ele: esse tal vazio que me preenche de tão habituada que estou.
A SZA fala disto, de querer o amor de uma forma que não é para nós, no famoso hino internacional Normal Girl:
“Gostava de ser o tipo de rapariga que levas a casa da tua mãe.
O tipo de rapariga de quem o meu pai teria orgulho.
O tipo de rapariga que os teus amigos aprovariam.Rapariga normal, oh.
Gostava de ser uma rapariga normal, oh meu.
Como é que se faz, como é que eu faço para ser a tua miúda?Rapariga normal.
Gostava de ser uma rapariga normal.
Mas nunca serei.”
Eu disse que não era sobre comboios, mas aqui talvez seja um pouco…
Em inglês existe uma palavra da família de comboio, usada para descrever mulheres que não são consideradas normal girls: trainwreck. Literalmente, desastre de comboio.
Uma trainwreck é aquela que saiu da linha do que se espera de uma “boa mulher”, que vocês já sabem, é equilibrada, contida, emocionalmente agradável, sexualmente discreta, aliás discreta no geral, e perfeita para cumprir o seu propósito de troféu.
Chamar uma mulher trainwreck é uma forma de tornar a sua vida íntima um espetáculo público. Mas mais do que isso, é daquelas cenas que começas a acreditar de tanto ouvires: se saíres da linha, és a próxima.
Enquanto a desobediência do homem é percecionada como essência quase heróica, a desobediência da mulher é punida socialmente — mas será que nós, mulheres desobedientes, estamos tão confortáveis como os homens em sê-lo?
É que nesta linha de pensamento vem também a solidão de quem se cansa de não se sentir digna de cuidado ou compreensão, e mesmo sem tradução exata, reconhecemos essa figura: a mulher carnaval, aquela que só tem lugar no segredo.
Seria mais fácil ser essa tal de normal girl, mas seria real?
Não ser uma normal girl também é meio irreal, para ser sincera… Sejas quem fores vou tentar explicar, vê se achas relatable: sabes aquela sensação de ter os ouvidos entupidos e não conseguires desentupir? E aceitares que, durante um tempo indefinido, vais ouvir tudo meio abafado? É tipo isso.
Pelo menos é essa a sensação do meu íntimo. O que eu quero não pode ser nítido. É fusco. E como poderia ser diferente, se nem sempre acredito que mereço o que quero — nem para o bem, nem para o mal?
A ideia de ser escolhida é uma armadilha.
No episódio 296 da Obvious, “A gente é feita para sonhar” Marcela Ceribelli conversa com a Maíra Liguori sobre o que impede a mulher de sonhar como um homem — e sobre como, tantas vezes, a rotina e a realidade dura das mulheres vão desconectando as nossas vontades mais sinceras da possibilidade de futuro. Falam da importância de não deixar os sonhos morrer. De voltar a encontrá-los e de não esquecer o que se queria antes de se aprender a querer o que é possível.
Foi logo no início do episódio que dentro de mim algo fez ligação: o meu sonho não poderia nunca ser ser escolhida. Muito menos “encontrada”.
Porque isso, no fundo, só reflecte o lado mais fake do amor — aquele onde o merecimento depende do olhar do outro. Eu não quero compatibilizar-me com isso. Nem com prateleiras de merecimento. Por isso que odiei sábado, apesar de compreender e ser-me tão familiar, porque esse também é o mundo que eu vivo. Mas esse não é o meu sonho, nunca foi o destino que quis.
O meu sonho sempre foi o amor real — por mais irrealista que isso possa parecer, ironicamente. Mais do que ser amada, o que sempre desejei foi amar de forma inteira, contribuir para um mundo que acolha a mulher na sua complexidade, no seu desejo, na sua dúvida e na sua força. Um mundo que a respeite no seu todo.
E por isso que também não posso ficar triste comigo por ser demasiado, ou serei parte de um problema que não desejo.
Vou tentar lembrar-me disso da próxima vez que cruzar com o R — que não preciso de me perder para que o amor me encontre. Que, mesmo que só exista eu para me confirmar, eu sou real. Que o meu tamanho não muda por ter — ou não ter — alguém sentado ao meu lado.