Marleying: quando ex’s voltam no Natal

by | Dez 23, 2025

Feliz Natal, espero que estejas bem…

Se leste — ou escreveste — isto, e tu sabes muito bem o que é isto, respira fundo: não envies nem respondas já.

Há mais probabilidade de tu ou um ex se procurarem no Natal do que em Mercúrio retrógrado e esse regresso chama-se marleying.

Embora o termo não tenha pegado muito nos países de língua portuguesa, o comportamento é fácil de reconhecer — e talvez, se lhe dermos aqui espaço e atenção verdadeira, a nossa relação com ele possa finalmente evoluir para algo mais consciente e menos automático.

 

@megsdeangelis

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Marleying

Faz parte da família da cuffing season — aquele fenómeno sazonal em que o frio desperta uma vontade súbita de arranjar alguém para hibernar romanticamente (como a SZA explica muito bem na música Big Boy) — mas o marleying é uma forma de carência sazonal ainda mais perversa.

O termo é uma referência ao clássico de Charles Dickens, Um Conto de Natal, onde Jacob Marley — o fantasma do ex-sócio de Scrooge — aparece na véspera de Natal para o confrontar com as consequências do seu egoísmo.

Marleying, em contexto romântico, acontece quando alguém com quem já partilhaste uma história volta do nada só para te fazer sentir tudo o que foi e tudo o que poderia ter sido — com um timer invisível definido para o fim da época natalícia.

É preciso medir bem quando dois se cruzam nesta vontade de remexer. Perceber se as intenções de cada um são reais ou se estamos apenas a reencenar fantasmas é essencial nesta época — mesmo que nem todas as mensagens de ex sejam marleying, porque não são. Só aquelas que tu sabes, no fundo, que em janeiro vão parecer um fever dream e que um dos dois vai acabar por dar ghost.

Será que poderia ser diferente?

Em dezembro, parece que estamos todes sintonizades na mesma playlist emocional: os filmes e as músicas de Natal empurram-nos para gestos de afeto, há mais canções românticas sobre o Natal do que sobre o Dia dos Namorados, e passamos semanas a marinar em vinho tinto e espumante como se isso fosse uma estratégia emocional viável.

Dezembro é o mês mais romântico do ano.

E, no romance, cabe muita tristeza, muita saudade, muito desespero, né? Estudos mostram que, no final do ano, muitas pessoas sentem mais solidão, ansiedade e nostalgia — mesmo em contexto de convívio — num fenómeno conhecido como “síndrome de fim de ano” ou holiday blues.

Tudo isto, misturado com o regresso a casa ou com a saudade, deixa o cérebro doido por uma conchinha boa. E até relações passadas — que tinham mais coisas más que boas — parecem, por um instante, lugares seguros. Por isso, tanta gente confunde carência com destino e impulsos e devaneios emocionais com epifanias.

Dezembro convida-nos a admitir sentimentos com uma coragem que, em março, simplesmente não existe — o reencontro perfeito, a lingerie temática, a mensagem inesperada, o presente, o último beijo do ano. Sentimos como se não pudéssemos perder aquilo que parece a última oportunidade de amar e ser amades.

É por isso que tantos ex voltam. E é por isso que tantos de nós respondemos — eu incluída, que enviei mensagem quando ainda faltavam dois dias para dezembro.

O meu hot take? Vale a pena descobrir o que acontece se permitirmos às nossas ligações respirar — nutrindo o que temos, em vez de forçar alguém a ser o penso rápido das nossas carências emocionais.

São luzes ou ilusões

Sabe muito bem sentir que o outro também pensa em nós — mas isso não nos deve fazer esquecer como chegámos a esta vontade.

Reaproximar-se de um ex não tem de ser um erro… mas quando é preciso desejar-lhe “Feliz Natal” para isso, há 98% de probabilidade de ser armadilha.

Aqui vai uma lista de ✧ coisas que te podes perguntar ✧ quando, de repente, te vês neste filme:

✧ Sobre enviar mensagem a ex

  • closure pendente e vontade genuína de conversar.

  • As falhas do passado foram circunstanciais, não estruturais.

  • O contacto é claro, adulto e honesto.

  • Cada um respeita os limites atuais do outro.

✧ Quando é marleying

  • Motivação: solidão, carência ou baixa autoestima.

  • O Natal é só um pretexto; intenções pouco claras.

  • Histórico de abuso emocional.

  • A mensagem não traz sinais de responsabilidade pelo silêncio do passado.

  • Não é sobre o que aconteceu, é sobre o que faria sentir bem agora.

  • Faz-te sentir confuse, instável ou ansiosa/o.

✧ Para antes de responder

  • Estou a querer esta pessoa ou só a ideia dela?

  • É mesmo saudade ou apenas carência?

  • Se fosse março, eu enviaria esta mensagem?

  • Que impacto emocional terá para mim amanhã?

  • Preciso mesmo de dizer algo, ou é só para me libertar agora?

Nem toda a luz é farol; algumas só nos lembram para onde não queremos ir. É normal sentirmo-nos encadeades diante delas e, ao experimentar sentimentos de culpa ou vergonha, anota: não te deixes consumir por esses.

Tu não és estranhe nem desesperade por sentir vontade de mexer no passado. É importante lembrar que fazes parte de um fenómeno cultural — milhões de pessoas no mundo sentem o mesmo. Todos nós seremos, em algum momento, tanto a pessoa que envia como a que recebe — e há uma beleza estranha nisso, que nos traz humildade no julgamento.

Sim, conta a alguém.

A tua rede de apoio é preciosa — amigos, família, quem esteve contigo antes dessa mensagem que, de repente, parece ocupar um lugar enorme no teu mundo.

Deixa que sejam a tua âncora. Talvez possam lembrar-te por que acabou, ou simplesmente partilhar um abraço que ambos precisem. Megan Wallace escreveu precisamente sobre isto num artigo para a Feeld: “This cuffing season, are we horny for a partner? Or for community?”

Amor sazonal? It’s not that deep. Mas cuidar dos teus e deixar‑te cuidar, mesmo quando o tema parece parvo — tipo pensar em ex — continua a ser essencial.

Qualquer pessoa ao teu lado pode estar nessa situação. Usa esse amor de forma frutífera. Não bebas de shot se a ressaca emocional não for opção. Se for, há pão-de-ló, há sobras no frigorífico para consolar, e há os teus amigos e família para te ouvirem e lembrarem que o amor merece dignidade, cuidado e respeito.

O marleying é complicado para todes. Por isso, por um Natal mais sexy, evita e rejeita qualquer linguagem que aumente culpa ou vergonha — perguntas do tipo “Vais-lhe responder? Estás doide?” entram nessa.

Segue em frente, com o passado ou não. Tenho a certeza de que estás pronte para arrasar.

Feliz Natal, espero que estejas bem <3

Ainda sobre emoções malucas sazonais, confere o meu texto do ano passado sobre família x natal .

 

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